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“O balão não é um saco de papel!” Começo essa entrevista com a frase dita durante a entrevista com a Beira Rio. Sim essa frase remete a um balão fogueteiro feito pela turma que foi muito criticado por ter sido decorado para subir com fogos, muitos alegaram que por sua beleza deveria ter sido painel. Mas foi concebido e solto como fogueteiro mesmo. Antes o disso o fogueteiro geralmente era de uma única cor ou listrado. Talvez tenha sido e Beira Rio que iniciou, pelo menos em São Paulo, o fato de se decorar balões com fogos, alem de ser detentora de diversos Boca de Ouro e outras premiações. Turma que realmente remete ao sentido da palavra “TURMA”, em que havia reuniões com ATA e tudo mais. Projetos decididos no começo do ano por votação em que vencia a maioria, e todos concordavam, onde os guias do balão já eram definidos, sempre eram as mesmas pessoas. Isso remete ao total controle de tudo que rola na turma em que existia uma grande democracia, mas que obedecia a pequenas regras já existentes no regimento interno da turma. Nesta entrevista pudemos constatar o sentimento de impotência dos integrantes diante o termino da Beira Rio, o sentimento que ficou foi o de saudosismo da época, e a dor pelo termino da turma que deixou muitos órfãos segundo a própria Beira Rio. Nas
linhas abaixo vamos contar a história desta grande turma como se
estivéssemos sentados vendo esta trajetória de grandes balões a BEIRA de
um RIO. |
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1- Como tudo começou e qual foi o ano de fundação da Equipe?
R: Tudo começou em festas
juninas. No mês de junho fazíamos festas com as famílias e soltávamos
balões juninos em frente de casa. Em uma dessas festas, chegou um rapaz de
nome Zinho, da Turma Arranca Rabo, que já fazia balões de equipe e soltava
esses balões em um terreno próximo ao início da Rodovia dos Imigrantes.
Ele comentou se eu não queria fazer uns balões diferentes (maiores) e me
levou para ver os balões que subiam lá na Imigrantes. Eu fui e depois de
uns dias, o Zinho me trouxe umas folhas de papel flor-post, então logo de
cara, já cortei um 4x4 e foi ai que tudo começou! 2- Nesta época você já conhecia os respiros?
R: Não, só a partir de quando
comecei a ver os balões na Imigrantes é que tive conhecimento de como eram
feitos esses balões e como é que se deveria fazer para saber a quantidade
de gomos que ia em cada balão, que era sempre múltiplo de 7, etc... 3- Quem foram os fundadores? R: Eu (José Roberto) e o Zinho da Turma Arranca Rabo. 4- Vocês tiveram dificuldade de escolher o nome ou já foi logo sendo Beira Rio?
R: Não tivermos dificuldades
com o nome, porque em frente de casa já tinha um campinho de futebol, com
o nome de Beira Rio, então pensamos: 4- O que a Beira Rio curte no meio do balão?
R: Gostamos muito de Painel. 5- O que é o balão para Beira Rio?
R: No início da Turma, era uma
novidade geral. Imagine você saindo do balão junino e indo para um balão
de mais técnica! 6- Por que vocês gostam de balão?
R: Balão tá no sangue! 7- Qual foi o balão de inauguração da equipe? R: Foi um 4x4 solto com um painel que tinha o rosto de um “reizinho” desenhado. A decoração do balão imitava que o balão estivesse pegando fogo. Esse foi o primeiro balão com nome de Beira Rio. Nessa época, a Turma tinha aproximadamente oito integrantes, e deu um trabalho danado para fazer esse balão, porque ele foi feito e decorado em cima de portas de guarda-roupa, que eram montadas no quintal de casa! Isso é para vocês verem como a Beira Rio começou! Em dias de chuva, a gente fazia balão dentro da cozinha! A bancada era montada apoiada no vitrô, na mesa da cozinha e num aquário! Imaginem, todo o pessoal fazendo balão lá dentro e minha mulher fazendo almoço! Dou muitas risadas quando lembro daqueles tempos, era muito legal! 8- Os familiares e o hobby. Como é essa relação? R: Conforme eu estava falando, a Turma tinha oito componentes, todos com idade bem abaixo da minha. Eu tinha 30 anos, e o pessoal entre 17 e 19 anos. A minha família ajudava bastante. Minha mãe, meu pai e minha esposa participavam muito. 9- Quem era o responsável por criar os projetos da equipe? R: Na Beira Rio, tínhamos como norma, sempre fazer uma reunião no início do ano e cada componente da Turma apresentava o seu projeto e então todos votavam. O resultado era colocado em ata, e cada balão escolhido ficava com o nome daquele que tinha apresentado o projeto. Por exemplo: Se o projeto apresentado pelo Zinho ganhasse, faríamos o “balão do Zinho”. Todos os balões que iriam ser feitos ao longo do ano eram decididos no início do ano. 10- Como vocês buscavam as informações das novas técnicas em matéria de balões? R: Através de visitas a outras turmas. Lembro que lá na Imigrantes, quando as pessoas chegavam no campo, recebiam um prospecto com todos os dados do balão que iria subir. Isso ajudava bastantes, pois com o prospecto na mão, ficávamos analisando os erros e acertos da Turma que tinha confeccionado o balão. Então, quando fôssemos fazer um balão parecido, a gente tirava proveito de todas essas informações. O prospecto era uma aula de balão! Para quem fazia balão,essas informações eram fundamentais. 11- Como a equipe começou a participar de campeonatos?
R: A primeira vez que ganhamos
a Boca de Ouro foi em 1987, e na verdade o balão nem estava inscrito na
Boca de Ouro. Nessa época, a Turma Beira Rio estava numa fase de
transição, pois até 1985 só soltávamos balões letreiros ou painel e
limitados ao tamanho 5x5. Somente a partir de 1986 é que começamos a
colocar fogueteiras nos balões.A partir desse ano, muitos componentes de
outras turmas começaram a participar da Beira Rio. Com a vinda desses
novos componentes, foi decidido que deveriam ser aumentados os tamanhos
dos balões. Saímos de balões 4x4 e fomos para um 7x7 fogueteiro noturno.
Conforme já expliquei, esse balão não era para concorrer à Boca de Ouro,
pois nem era esse o objetivo da Turma. 12- E como a equipe passou a ser vista deste momento em diante?
R: Quando saiu a noticia que a Beira Rio ganhou a
Boca de Ouro, deu a maior confusão, pois a Baleão se achava no direito de
ganhar o troféu, alegando que nós não tínhamos inscrito o balão, porém o
Daniel (Turma Vamo q Vamo) que era uma das pessoas que organizava a Boca
de Ouro, confirmou que o balão estava inscrito, mesmo não sendo ninguém da
Turma Beira Rio que tivesse inscrito o balão. A partir desse fato,
resolvemos fazer um 10x10+2 para o ano seguinte, aí sim com o intuito de
inscrever o balão na Boca de Ouro (categoria fogueteiro noturno). Pensamos
entre nós mesmos: Já que é para concorrer, então vamos fazer um balão
grande! A confecção desse 10x10+2 trouxe novas pessoas para integrarem a
turma: Podemos citar o Jacaré e o Adelino, que eram da Turma Estrela
(Ipiranga), o Garcia que veio da Turma Baloarte, e mutos outros. 13- Como eram encaradas as críticas em relação aos trabalhos de vocês? R: Alguns integrantes de outras turmas diziam q a Beira Rio era muito “protegida”, mas a gente levava de boa, não levávamos essas afirmações a sério. Engraçado que muitas dessas pessoas que faziam esses comentários maldosos, estavam sempre presentes em nossa bancada e em nossas festas. Mas nunca tivemos problemas com ninguém, sempre procuramos tratar muito bem a todos e a gente nunca teve nenhum atrito com outras turmas. A única encrenca que tivemos foi com a Turma do Baleão, na entrega do troféu Boca de Ouro de 1987. 14- De onde surgiu ou de quem é a idéia de fazer um balão fogueteiro para concorrer numa boca de ouro? R: A primeira vez que fizemos um balão fogueteiro, foi na intenção de fazer um balão para a satisfação dos integrantes da própria turma. Mas, aconteceu tudo aquilo que eu já expliquei antes, o Renatão que não era da Turma Beira Rio inscreveu nosso balão e ganhamos a boca de ouro. A partir disso, resolvemos fazer um balão para concorrer e inscrevê-lo pra não acontecer o que havia acontecido anteriormente, e aí pegamos gosto pela coisa! 15- Qual foi o resultado?
R: Ganhamos a Boca de Ouro
(fogueteiro noturno) por três anos consecutivos! 16- O que isso trouxe de beneficio para equipe? R: O benefício foi a satisfação da turma! A partir daí, optamos por não soltar mais balão liso (de uma só cor). Fazer balões decorados tornou-se uma obrigação para a turma. 17- Qual balão é motivo de orgulho da equipe? R: Em minha opinião todos, pois dependeram do esforço da turma. Cada balão tem a sua própria história, todos têm a mesma importância, independente se ele ganhou Boca de Ouro ou não, a satisfação de soltar é a mesma! 18- Bandeira, Fogueteiro, Painel ou Letreiro? Enfim do que vocês mais gostam? R: A Beira Rio se especializou em painel, começou com painel e praticamente terminou com painel. A segunda opção era balão fogueteiro. O pessoal da Turma gostava muito de fogueteiro. Os balões resgatados eram soltos na sua maioria com letreiros, em que sempre fazíamos homenagens para esposas, filhas, sobrinhos e parentes dos componentes da Turma. Sempre tivemos muito respeito com os balões resgatados, porque ali estava o resultado do trabalho, do capricho e da dedicação da turma que havia feito o balão anteriormente. Sempre procuramos remendar os balões resgatados com as cores originais do balão. Não é porque o balão era resgatado que iríamos soltar sem nada, de qualquer jeito. Os balões resgatados diurnos eram soltos geralmente com fogos e asa delta. A maioria dos balões resgatados nós nem sabíamos de que turma eram, porque a maioria deles vinham sem nome. Nós divertimos muito com balões dos outros! 19- Vocês soltaram um 11 x 11 azul fogueteiro que começou a acender as fogueteiras no chão, o que deu de errado na ocasião? R: O erro começou já no projeto, a última fogueteira (gaiola de baixo) que a gente chamava de lastro, era quadrada, enquanto que todas as outras gaiolas eram sextavadas. Chegamos a conclusão que a melhor solução seria colocar dois pavios individuais, um para todas as gaiolas sextavadas e outro pavio separado para a gaiola quadrada que era chamada de “geladeira”! Essa gaiola sozinha tinha 180 dúzias de fogos. Estava cheia de três tiros, rabo de pavão, chuva de prata caseira, etc... No momento da soltura, o balão saiu levando tudo, mas foi em direção aos fios de eletricidade dos postes da rua. Quando travamos o balão, a gaiola de cima (sextavada) que já estava acesa, raspou o pavio na chuva de prata da gaiola quadrada e aí não deu tempo de mais nada, a gaiola quadrada acendeu tudo no chão! Foi o maior corre-corre, gente se escondendo atrás de carros, gente se jogando dentro do rio, etc! Mas de resto foi tudo beleza, o balão abriu as outras gaiolas sem problema nenhum e deu um belo espetáculo. Foi um erro de projeto, mas isso também serviu para não se errar mais. 20- De quem foi à idéia de procurar o professor Adib e porque ele? R: A gente ouvia falar muito do Adib, e sabíamos que o Adib tinha as fogueteiras sobrando de um balão dele que não tinha dado certo. Queríamos comprar as fogueteiras dele, mas ele não quis vender. Mas o Adib foi muito atencioso com a gente, ele nos ensinou como eram feitos os enxertos dos cometas. Compramos os cometas com ele e compramos as bailarinas com o Chefia da Turma da Comédia (São Mateus). Então fizemos os enxertos no mesmo esquema que o Adib fazia. Os balões fogueteiros do Adib sempre foram muito bonitos. 21- O que o Adib contribui para os novos projeto da equipe? R: Com as técnicas ensinadas pelo Adib, ganhamos a Boca de Ouro de 1989 em São Paulo e no ABC (fogueteiro noturno). O Adib deu muitas dicas para nós, sobre como montar uma fogueteira para ganhar troféu. 22-O projeto do 9x2x9 foi criado por quem? R: A idéia de fazer o balão foi do Chiquinho, mas a decoração foi feita pelo Jairzinho da Turma da Estrela. 23-Vocês acham que foi dai em diante que a equipe realmente emplacou? R: Acho que a Beira Rio soltou o freio mesmo, de 1987 em diante. E a partir daí ela só evoluiu, isso aconteceu através de muita informação que conseguimos através de trocas de idéias com outras turmas. Outro fator importante foi a entrada de novos integrantes na Turma, pois cada um trazia idéias novas, e todos contribuíram de uma forma bastante positiva. Porque se todos trabalham unidos em um mesmo projeto, as coisas dão certo! Então achamos que a união de todos contribuiu bastante para o crescimento da turma. 24- Fale-me das Bagdás e dos Painéis, que foram o forte da equipe.
R: O Bagdá nem foi o forte da
turma, porque vivemos uma alegria e uma tristeza:
25- Porque a equipe com toda estrutura que tinham, nunca fizeram um balão de grande porte? R: Por que era norma da turma, logo que a turma começou, nós fizemos um estatuto, e ficou decidido que o maior balão que iríamos fazer, seria um balão de 20 metros, porque acima disso, a coisa deixa de ser alegria e se torna uma preocupação. A gente sempre brincava dizendo que: “balão grande era fim de turma”! Cansamos de comprovar essa teoria, pois vimos isso acontecer muito com outras turmas que acabaram, após terem experiências desagradáveis com balões grandes. Antigamente um painel 7x7 era um balão respeitado, depois isso mudou para 9x9. Era muito difícil soltar um 10x10 painel, dava para contar nos dedos quantos 10x10 painel subiram perfeitos. Sempre achamos que se a gente começasse a fazer balões de grande porte, os membros da Turma iriam se empolgar cada vez mais e não iríamos conseguir segurar o entusiasmo do pessoal pelo gigantismo. Acho que iríamos ter muitos contratempos. Que nos desculpem as outras turmas que fazem balão de grande porte, nós até achamos bonito, mas o balão não tem que provar nada pra ninguém. Balão seguro são os de balonismo, o balão de papel é imprevisível, um mesmo balão pode chorar para levar 100 dúzias e numa outra soltura pode levar toda a carga e ainda “tirar um sarro da sua cara”! Balão é uma coisa muito imprevisível. 26- O que levou a equipe Beira Rio, no auge, a fazer uma fusão com a turma da Conquista? R: Nem foi uma fusão, a Conquista eram três pessoas, e eles começaram a visitar a bancada da gente na época que nós estávamos fazendo o 9x9+2 fogueteiro noturno, e com o passar do tempo, um deles veio a namorar com a minha filha, então foi assim que eles começaram a fazer balão com a Beira Rio. Dos três componentes da Turma da Conquista, um deles quase não aparecia na bancada, mas os outros dois que vinham, trabalhavam bastante, tanto é que o 7x7 do fundo do mar era projeto deles e a também a Golfier de 11 metros, com tema oriental. Teve também o pessoal da Turma Baloarte, que eram duas pessoas, um casou e o outro veio para Beira Rio. Esse rapaz que veio fazer balão conosco chamava Garcia. Ele somou muito em qualidade para a Turma. Era bacana porque os caras de outras turmas eram recebidos de braços abertos pela gente. O cara chegava aqui, mostrava seu projeto, o pessoal aceitava e eles ficavam contentes, e diziam é aqui mesmo que quero ficar! Nós sempre tivemos orgulho disso, porque as pessoas sempre eram sempre bem recebidas, graças a Deus. 27- Quais foram os prós e os contras que esta fusão trouxe para equipe? R: A única coisa que dava discussão em balão eram as guias, então sempre que alguém novo vinha para turma, já era explicado que existiam pessoas definidas para guiarem os balões, nunca se mudava, e quem viesse ou o que fizesse seria bem vindo, mas o fato de ter pessoas certas para as guias ajuda na soltura, pois já se sabe quem está em cada guia, se precisar você chama pelo nome, isso facilita bastante através do entrosamento, isso se resolvia desta forma, a gente simplesmente dizia quem mandava nas guias. 28- Vocês acham que essa fusão foi um ponto forte para as desavenças na equipe? R: Quando chega uma pessoa nova, sempre tem aquele ciúme, mas com o tempo isso vai acabando, às vezes havia um certo atrito logo no inicio da entrada de um novo membro, pois sempre no começo de todo ano, havia a reunião geral da Turma Beira Rio, onde eram definidos os projetos para o ano inteiro, então quando entrava alguém novo, essas novas pessoas normalmente vinham com seus próprios projetos, então um ou outro membro mais antigo ficava com um pouco de ciúmes, mas não me lembro de nada que tinha sido tão grave assim. 29- Qual foi o melhor momento da equipe na opinião de vocês? R: O melhor momento é difícil de dizer, mas achamos que o melhor momento foi o inicio da Turma, e o pior foi o término, pois muitos ficaram órfãos, parecia que tinha morrido alguém, o pessoal vinha bastante na sede, e quando acabou a Turma parecia que não tinham outro lugar para ir, realmente o pessoal ficou órfão mesmo. 30- Como era a cultura do baloeiro na época de vocês? R: A repressão era bem menor, aliás nem tinha repressão. Para se ter uma idéia, a gente fazia o balão com a viatura na porta de casa e os policiais vendo a confecção, eles até queriam saber que dia que o balão iria subir, nos até temos filmagens de nossos balões subindo e a sirene do carro da policia ligada, era bom demais! Por ser uma turma de família, a vizinhança toda ajudava. Nós fazíamos bingo para arrecadar dinheiro para fazermos balão, para se ter idéia quando fomos fazer o 9x9+2, o Chico teve a idéia de fazer 1000 chaveiros e 500 broches, como ele já estava entrando no mundo do balonismo, ele tirou essas idéias de lá, pois no balonismo se fazia muito isso. O broche usado pelo pessoal do balonismo era mais ou menos parecido com um Golfier, e o Chiquinho achou melhor fazermos os broches e chaveiros em forma de carrapeta, e nós conseguimos vender tudo! 31- Além de serem ponto de referência no ABC, o que vocês contribuíram no mundo dos balões? R: Nós ajudamos a manter a arte viva, por menor que tenha sido a contribuição foi sincera e muito curtida, a bancada nunca ficava fechada, todo o pessoal de outras turmas que vinham visitar a gente, logo que chegavam já viam nossos projetos de balões. E era para todo mundo ver mesmo. Nunca ficamos guardando segredo dos nossos balões. 32- Na década de 80 ou 90 vocês tiveram alguns conflitos antes e depois da boca de ouro com alguma turma? R: Só mesmo a com a Turma do Baleão, na entrega na boca de ouro de 1987, nas demais foi tudo sem contestação, foi só alegria! 33- Na opinião de vocês quais as diferenças dos anos 80, 90 e atuais? R: A década de 80 foi de aprendizado e também havia um grande romantismo pelo balão. Na década de 90, as coisas foram partindo para essência do balão mesmo, para se chegar onde ele está hoje, e nos dias de hoje não se tem mais para onde ir, pois o balão já atingiu o auge, não se tem mais o que inventar! Talvez seja preciso voltar um pouco no tempo, por exemplo, fazer como eram as coisas nos painéis antigos, porque hoje em dia está tudo muito igual. Todas as turmas se igualaram, principalmente por esse lance de um mesmo cara riscar balão para todo mundo, nada contra, porque qualidade é qualidade, se todo mundo quer, é porque é bom mesmo, mas isso deixou prejudicada a criatividade das turmas. Antigamente em balões riscados, às vezes você via um rosto torto, um braço torto, mas os balões eram riscados pelos próprios integrantes das turmas, enquanto hoje em dia, você vê balões de diversas turmas com os traços todos iguais, já se sabe que foi a mesma pessoa quem riscou, isso virou comércio. Que nos desculpem os baloeiros novos, mas na nossa época tinha-se um culto ao balão, hoje parece que o balão é tratado meio que com desdém. Atualmente poucos balões ficam marcados na nossa memória, na semana seguinte você já esquece os balões da semana passada... Lembro que em 1988 no balão painel do Chacrinha, no Rio de Janeiro, o pessoal já estava com saco cheio de fazer balões com quadros, e começaram a fazer uns geométricos muito bem feitos, fugindo um pouco do taqueado. Nós achamos que na época de hoje, perdeu-se um pouco do romantismo pelo balão. Mas também temos que colocar em destaque muitos balões lindos que subiram semanas atrás, como o balão do Rap (TIB), o modelado do tema Caçador de Vampiros (Turma Infinito), o balão da Turma Bavilões, e muitos outros balões lindos. 34- Hoje em matéria de balão as técnicas estão muito avançadas. O que vocês acham disso?
R: Achamos que os atualmente, os balões estão
totalmente dominados. Dizemos isso por vários motivos: 35- Para vocês o que é uma boa soltura? R: É aquela em que sai tudo dentro do programado, essa é uma boa soltura. O legal é você poder curtir, poder ficar ali paralisado no campo, vendo o balão no alto, vendo seu trabalho! 36- O que caracteriza uma péssima soltura? R: O balão queimar no guia, você está com o balão empinado, e de repente bate uma brisa e você perde o balão. Isso aconteceu com a gente num 8x8 painel de tema “Gladiadores”, era um balão de dois anos de bancada, este balão queimou e usamos o mesmo tema em outro balão, se bem que o primeiro era mais bonito. Outra coisa ruim também, deve ser o balão queimar no maçarico, não dá nem pra curtir nada do balão. Mas felizmente isso nunca aconteceu com a gente. 37- O que é realmente um "pé no saco" pra se fazer no balão, na opinião do Grupo? R: Decoração do balão, porque o cara que riscava tinha que ficar ali do lado, falando o que tinha que se fazer! Se nós repararmos, hoje em dia se abre um leque e se vê a decoração toda do balão.No nosso tempo era diferente, não existia leque. Antigamente, o cara que riscava balão era um artista, porque a decoração estava armazenada dentro da cabeça dele. Tinha vez em que o cara que riscava chegava num dia inspirado para riscar o balão e fazia uns desenhos bem legais, tipo uma cachoeira, etc. Mas quando o cara não estava inspirado, ele chegava e só desenhava, pedra, pedra e mais pedras! E ainda dizia: Fica frio, tenho tudo armazenado na minha cabeça. Se vocês observarem na nossa Bagdá de 14 metros, existe um desenho que mostra um trem, mas esse trem não tem trilhos! ( risos). Antigamente, muitas vezes o cara que estava riscando o balão, nem sabia quantos gomos um determinado desenho iria ocupar, depois a gente tinha que dar acabamento no filete, somente quando o balão estava cheio, no momento da soltura é que se iria ver o resultado da decoração, e era sempre uma surpresa. Era bom demais! Hoje em dia o que está no leque é o que se vê no balão, não existe mais aquela surpresa. 38- Sobre a polêmica de não se soltar balões fogueteiros, acha que realmente deveriam se parar com os eles e só ficar com as bandeiras? R: Hoje tá difícil pra todo tipo de balão, principalmente pelo fato de ter que transportar as coisas. Mas acho que está pior para os balões fogueteiros, pois é preciso que se tenha um local para deixar as fogueteiras no campo. Muitas vezes a turma vai para o campo com todas as coisas e então começa a ventar. Daí, para não trazer o balão e tudo de volta, justamente por não ter para onde levar a fogueteira de volta, acabam soltando o balão naquele dia mesmo, sem muitas condições, com vento, etc. E o resultado é que a soltura acaba não dando muito certo. 39- O que se pode fazer para amenizar o preconceito que vocês sofrem?
R: Uma grande parte desse preconceito é causada pelo
próprio baloeiro. Vejam as confusões nos resgates, os caras não respeitam
nada, por que é assim? 40- Em relação à mídia, o balão ou baloeiro tem uma visão péssima. No que vocês poderiam contribuir para mudar esta imagem? R: No resgate é necessário não invadir casas, não quebrar telhados, não brigar. Os próprios baloeiros não se respeitam, sabe como é, no balão tem todo tipo de gente, rico, pobre e ninguém vê se você tem uma Ferrari ou um Fusquinha ali é tudo igual. É uma questão de educação, fazer balão acaba tendo sintomas bem parecidos com o uso de drogas. Se a pessoa que se envolve nisso não tiver educação e decência, acaba ficando alucinada, fica fora da realidade. 41- Como foi ganhar em várias categorias a boca de ouro em um só ano e qual foi este ano? R: Foi em 1993, ganhamos Boca de Prata e Boca de Ouro, com painéis. Poderíamos ter ganhado também o troféu Bandeira de Ouro, com o 7x7 do fundo do mar. Nosso Golfier de 11 metros também ficou muito bonito. O que realmente aconteceu, foi que em 1992 nós não soltamos quase nada, e para o ano de 1993, tínhamos prontos quatro balões bons. 42- A maioria das turmas de hoje estão participando em todas as categorias e campeonatos de boca de ouro. O que vocês acham disso? R: Achamos que deve existir um troféu oficial, e esse seria o válido. Deveriam haver concursos e votações locais, e depois juntam-se todos os balões ganhadores dessas votações e então seriam escolhidos os balões Boca de Ouro “oficiais” daquele ano, cada um em sua categoria. 43- No ano passado a boca de ouro completou 25 anos de existência e tem tido sucessivamente várias controvérsias em relação a resultados, no tempo de vocês eram mais transparentes ou justas as votações? Sim ou não? R: Vamos ser sinceros, nós nunca vimos um julgamento de uma Boca de Ouro, sabíamos que tinha um regulamento, mas nunca vimos como era seguido esse regulamento, não sabemos te dizer que critério era usado, que tipo de reunião eles faziam, se eles viam todos balões que tinha subido. Vamos ter o seguinte raciocínio: Digamos que existem cinco pessoas para julgar os balões e digamos que em um dia sobem 10 balões, não dá para os jurados verem todos os balões, então se julga pela filmagem, mas não se sabe perfeitamente o que foi feito na soltura. Assim, o dono do balão edita e deleta o que foi feito de errado. Dessa forma, a comissão julgadora não vê o que deu errado na soltura. Então, caso existissem um número maior de jurados, existiriam mais opiniões e teriam muito mais chances de acertarem no julgamento final. 44- No passado era um sonho, hoje é um pesadelo a boca de ouro. Comente isso na opinião de vocês. R: Hoje existe muita disputa, o pessoal está soltando mais o balão para os outros verem, do que para a satisfação dos próprios integrantes da turma. Tudo é feito visando a concorrência. A pessoa faz um 2x2 e depois pula logo para um 10x10, para dizer que fez um balão de porte, mas assim, muitas vezes acaba se arrebentando. 45- Fale-me um pouco sobre a lei no passado contra o balão. R: Antes era contravenção, não era nem crime, era igual ao jogo do bicho, se falava muito e se fazia pouco, ninguém tomava atitude nenhuma, a policia passava e via aquele monte de gente, e não fazia nada. Hoje em dia, se for soltar um caixinha de 16 folhas, já corre-se o risco de ter problemas com as autoridades. Antigamente a repressão era bem mais branda, hoje em dia o que mais acontece são as autoridades quererem tirar proveito financeiro da proibição do balão. Vejam quantos balões são aprendidos, mas no dia seguinte outra turma vai na delegacia e pagando, leva o balão que estava apreendido. 46- Qual foi o impacto direto ou indireto sobre o artigo 42? R: Hoje tem que se ficar com um olho no peixe e outro no gato, hoje não se solta mais um balão tranqüilo. Antes as turmas tinham, como objetivo principal a segurança do pessoal que participava da soltura, hoje preocupa-se mais com a repressão e assim não dá para a equipe se concentrar totalmente na soltura, isso prejudica muito o momento do lançamento do balão. 47- O balão é uma marca deixada pelo folclore junino? R: É uma evolução do folclore, todos baloeiros começaram a soltar balões em festas juninas, eu comecei a soltar balão com a minha irmã! Quando eu era pequeno, lembro que eu soltava balão com uma buchinha molhada de álcool, dentro de casa! O balão subia e ficava parado no teto de casa até acabar a bucha! Eu ficava olhando, curtindo o balão! Existia todo um fascínio! Festa junina sem balão é igual a um jogo de futebol sem bola. Se for numa festa junina e não tiver balão às pessoas acabam indo até embora, sem balão não há graça. 48- O grande lance para muitas turmas é o balão em dia de semana, o que acham disso? R: Existia uma regra na Beira Rio, que era sobre respeitar o grupo. Marcávamos uma data inicial para soltar o balão. Por exemplo: Marcávamos para soltar no sábado dia 27, pois esse era o dia em que todos estariam disponíveis, só que a partir deste dia, caso o balão não subisse, subiria qualquer dia da semana, mesmo se estivesse faltando um dos componentes da Turma. Já aconteceram diversas vezes de algum componente ter trabalhado bastante no balão, mas não estar presente no dia da soltura. Então, para nós, o fato de soltar balões em dias de semana ou em finais de semana, era indiferente. 49- O que tem de bom ou ruim hoje em matéria de balões na opinião de vocês? R: De bom podemos citar a qualidade dos balões, cada dia tem um mais bonito do que o outro. O ruim é o exagero de bucha, carga e tamanho. 50- Vocês fariam tudo de novo em matéria de balões? R: Com certeza! Não é possível voltarmos atrás, mas se fosse possível, faríamos tudo de novo! Fizemos muito amigos no balão, eu não tenho muitos parentes, mas minha casa está sempre cheia de amigos! Na minha agenda de telefones, a maioria são baloeiros! 51- O que traz mais saudades? R: Tenho saudades de tudo, lembro da bancada sempre cheia de gente. A falta do balão é uma coisa impressionante, não dá nem pra explicar. 52- Vocês participavam de resgates? R: Como em qualquer turma, existem os membros que fazem balões, e os que só resgatam. No nosso caso, 50% das pessoas faziam e ou outros 50% só resgatavam. Tinham uns caras que não colavam um taco sequer num balão, mas na hora do resgate esses caras eram feras! 53- O que deve mudar no cenário baloeiro de agora em diante? R: Um baloeiro deve respeitar mais ao outro. É preciso existir uma mudança de pensamentos, é preciso existir educação acima de tudo. 54- Um momento triste? R: Foi no momento em que a bancada estava sendo desmanchada. É como se o seu sonho estivesse se desmanchando e você não podia fazer nada, não tinha forças para lutar contra. Foi uma perda mesmo. 55- Um momento feliz? R: Toda a nossa trajetória pelo meio do balão foi muito feliz. É motivo de alegria, mesmo que distante, continuar vendo os balões quando possível, continuar revendo os amigos, poder conversar sobre balões, etc. Isso é coisa que não tem o que pague, você vai ver um balão no meio do nada, e então encontra um amigo que não via há vários anos e esse amigo te reconhece e te chama pelo nome! Só o balão é que pode proporcionar isso! Bate Bola - Jogo Rápido: Uma Turma? R: 10 de Ouro. O melhor Balão que já viram? R: Airton Senna, da Emenda O Pior balão que já viram? R: Não dá pra pular essa pergunta não? (risos). Já vimos balão subir e largar o painel no chão, porque o pessoal tinha esquecido de amarrar o cabresto! Balão Noturno ou Diurno? R: Noturno, Painel. Uma pessoa do meio? R: Uma pessoa que trabalha muito no balão é o Odair da Turma da Lua. O melhor baloeiro? R: Não tem, todo mundo que ser o melhor. Eu mesmo. O Pior baloeiro? R: Eu mesmo também, porque estou saindo do meio e não tenho forças para lutar contra isso. Espaço para considerações finais. Sabemos o quanto é difícil e trabalhoso manter o site em funcionamento, então queremos agradecer aos amigos do Planeta Balão, que cruzaram a cidade de ponta a ponta, para realizar essa entrevista. Ficamos honrados por ainda sermos lembrados, pois a Turma Beira Rio terminou em 1994, quinze anos atrás! Se pudéssemos fazer um resumo de tudo que passamos durante nossa permanêcia no balão, diríamos que só temos a agradecer ao balão, pois ele nos deu amigos, alegrias pra caramba e experiências de vida, pois aprendemos a viver em grupo e a respeitar as pessoas, então queremos agradecer mesmo por termos participado desses momentos e de ter contribuído muito para que esta arte não morra nunca. Desejamos para os futuros e atuais baloeiros, que tenham a mesma sorte que tivemos, e que curtam mesmo o balão porque isso é tudo de bom! Não podemos esquecer que o balão é uma brincadeira, mas é uma brincadeira séria, pois mandamos balões para o alto, mas não sabemos onde eles vão cair, não sabemos onde eles vão passar, então temos de ter muita consciência para que o balão sempre seja visto com admiração e não seja visto com pessimismo, com crítica ou vandalismo. O balão deve ser feito como uma obra de arte, para que as pessoas possam te aplaudir e ficar contentes, e não para que as pessoas tenham raiva de saber que você é um baloeiro. |
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